
Este texto pode não agradar a ala masculina. Que me desculpem, mas nós mulheres, temos uma vantagem em nossa relação com o futebol. Podemos desfrutar o esporte que amamos apreciando belos (raros) protagonistas da mesma forma que vocês assistem exibições de Isinba(y)eva. É claro que muitas nos causam problemas com este assunto, é triste ouvir sua amiga que assistiu Condomínio vs Estacionamento porque o camisa 8 tinha uma bela cara. Constrangedor mesmo, vergonha como cair na rua movimentada durante a adolescência. Aceitem esta nossa vantagem, e que não formem (mais) pré-conceitos.
Imagino o pensamento de alguns, mas confesso minha debilidade: equipes que aliam caráter, personalidade, maturidade e talento. Não que seja difícil resistir, é impossível. Se coloquem em nosso lugar, um time de Isinba(y)eva’s por uma seleção adversária no Mundial. Em algum momento se renderiam a esta combinação cruel para quem nasceu em tempos de carência coletiva das qualidades humanas. Mas isso é assunto para psicólogo-psiquiatra-pastor-padre-paidesanto.
Não quero antipatias, mas só assim explico os outros argentinos na Libertadores, imponente e místico Estudiantes LP e ao marcante Vélez Sarsfield.
Em La Plata eles próprios dizem que só mística não sustenta o sucesso, estão com a razão. E como custa negar razão a este grupo. Não só assisto partidas del Pincha, aprecio o conjunto completo da obra, é assim que vejo aos homens pincharratas, apreciando. E o que eles produzem em campo me encanta ainda mais, afinal é o que me interessa tanto como vocês. O Estudiantes veste cores que não me agradam, mas tem o charme que me seduz. Guardião do futebol continental honra esta posição e criou em minha mente uma imagem mítica (e exagerada, vocês já sabem) que ilustra a equipe: nobres caval(h)eiros defensores da simplicidade em meio ao futebol megalomaníaco. Mesmo adversários, devemos admitir que é uma equipe de homens admiráveis e que ainda jogam – brilhantemente – com o comando impecável de Alejandro Sabella.
Uma forte característica do Estudiantes é o domínio de jogo, e isso se explica; A bola só pode ser encantada com o galanteador time de La Plata. Entre grupos de jogadores acéfalos que a mal tratam e uma equipe sábia que a maneja com cuidado e consciência, há dúvidas da escolha? É obvio, está hipnotizada pela classe cada vez mais rara. Sob a maestria de Verón, movimenta-se com inteligência um time que não comete os erros da precipitação, sabe quando mostrar o que sabe, adepto da filosofia “esconda a capacidade, espere a oportunidade”. Filosofia de jogo, o que falta ao futebol e por isso vejo esta equipe como ensinamento e confesso sentir inveja. Parecem estar preparados para brigar pelo for, conduzindo seus adversários com a maturidade de quem conhece os caminhos. O jogo de toques envolve os adversários que a sua frente chegam a comportar-se de maneira quase infantil; E quando a beleza não quer se mostrar, eles assumem outra face e vencem com entrega.
Sua solidez o credencia ao título, aliás, dois títulos, pois é o líder do Clausura. Nesta terça feira, Sabella arrisca na 1° partida frente ao San Luis deixa fora: Angeleri, Desábato, Verón, Braña, Sosa e Boselli (preservados para o clausura, quase uma agressão ao futebol bonito).
Se futebol fosse merecimento, a taça deveria continuar nas mãos dos que fazem com que esta equipe seja tão (exemplarmente) sedutora.
Há tempos uma discussão impera na Argentina, Vélez ou Estudiantes, quem tem o melhor elenco? Lamento por quem tenta responder definitivamente a pergunta ao invés de exaltar as melhores equipes do país.
Continuaria a falar do Estudiantes, se não houvesse o centenário Vélez Sarsfield, que muitos de vocês conhecem o poder. Vélez chegou a esta edição depois de conquistar o Clausura 2009, os tempos podem não ser aqueles gloriosos, mas estão sendo agradáveis aos fortíneros.
O time tem personalidade, lhe sobra. Talvez ainda lhe falte a maturidade que atingiu o vizinho de La Plata, mas sua presença não deixa de ser impactante por onde passe, com um elenco que beira o deboche com quem sofre com carência de talentos em sua equipe de coração.
Montoya, Díaz, Domínguez, Otamendi, Papa, Cubero, Somoza, Zapata, Maxi Moralez, López, Martínez, Barovero, Lima, Torsiglieri, Razzotti, Bella, Rolando Zárate e Ariel Cabral. Estes serão os convocados para enfrentar a incógnita do Chivas, em Guadalajara. Para muitos custaria escolher quem receberia as camisas titulares… mas isso é problema de Ricardo Gareca. Diria que possui chapa de candidato, assim sem traduções. É só ver o Vélez em campo, se entende em qualquer idioma, sem explicações.
Para encerrar, deixem na porta aqueles pré-conceitos que lhes falei e assistam a bela maneira como jogam as melhores equipes argentinas de 2009/2010. Nós aproveitaremos nossa vantagem e assistiremos apreciando cada jogada.